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Meu Trabalho e Eu – A importância da humanização no ambiente de trabalho

Meu Trabalho e Eu – A importância da humanização no ambiente de trabalho

Entenda a importância da humanização no ambiente de trabalho e conheça alguns sentimentos comuns ao trabalhador.

Meu Trabalho e Eu, este foi o título de um artigo escrito para o folheto de medicina preventiva publicado pela Clínica, há algumas décadas. Neste artigo, falava-se sobre a importância de restabelecer a humanização no ambiente de trabalho como caminho para saúde. Será que algo mudou de lá para cá?

Muito se fala hoje em dia de propósito, da busca de trabalho com algum significado, além da troca do esforço pelo dinheiro. Pesquisas publicadas por institutos globalmente reconhecidos, como Gallup, afirmam que os “millennials” têm prioridades diferentes das gerações que os precederam, em que o trabalho é tido como um meio de alcançar os recursos para viver após o expediente. 

Mas, a verdade é que seguimos enfrentando os mesmos desafios de décadas atrás e ainda mais acentuados eu diria, uma vez que a automação de processos e uso da tecnologia vem invadindo o ambiente de trabalho e não estamos sendo capazes de desenvolver ou nos conectar com nossas capacidades, nossos talentos, nossa verdadeira missão. 

Seguimos com a mentalidade de que trabalho e realização são antagônicos, e os poucos que conseguem realizar este encontro são privilegiados. 

Recentemente, assisti a um documentário chamado Indústria Americana, que retrata o choque de cultura no desenvolvimento de uma indústria chinesa nos EUA. Os trabalhadores sem direito a condições mínimas de segurança, nenhuma preocupação com o impacto ambiental em função de sua operação, líderes que tratam seus colaboradores como máquinas. Cenas que quando vistas na tela da televisão chocam. Será muito diferente do que vemos acontecer em grande parte das organizações?

Robert Blauner, sociólogo americano, escreveu na década de 60 o livro “Alienação e Liberdade”, como resultado de seu trabalho de pesquisa sobre o trabalho industrial na época. Em seu trabalho, ele destaca sentimentos comuns ao trabalhador neste cenário:

Alienação: A falta de clareza de como meu trabalho se integra com o todo faz com que eu não consiga perceber o alcance de minha tarefa. Recentemente ouvi o relato de um líder cujo colaborador pedia um tempo de folga em uma sexta-feira à tarde. Em seu relato o líder se sentia frustrado e irritado, pois a empresa passava por uma situação crítica em função da pandemia, e o colaborador ainda pedia um tempo de “folga”. Arrisco dizer que este colaborador, entre vários outros fatores, não têm claro o alcance ou a importância de sua tarefa para a organização. Esta alienação impacta a forma como pensamos o mundo ao nosso redor.

Solidão: Cada trabalhador tem sua tarefa e precisa ser o máximo produtivo. As relações no ambiente de trabalho são superficiais, humor e espaço para relações sociais em muitos contextos, são percebidos como: falta do que fazer. Expressar sentimentos não é bem visto. Com isso vamos sufocando a esfera do sentir.

Falta de poder: Em organizações onde o comando e controle imperam, o trabalhador se sente sem nenhum poder de influência. Todas as decisões são tomadas por outros. E isto vai eliminando a sua vontade. É interessante que o líder quando percebe os sinais da falta de vontade, refletida muitas vezes em procrastinação e falta de engajamento, não entende que este pode ser um reflexo de um sistema burocrático, em que a tudo é pré estabelecido. 

Falta de sentido: Quando não me percebo parte do todo, não sinto que posso me expressar, e tomar decisões, me deparo com a falta de sentido. Muitos de nós não vê sentido em seu trabalho e isso traz consequências para a expressão de sua personalidade no mundo, assemelhando-se a ausência do eu

Você reconhece algum destes sintomas em seu ambiente de trabalho? Pesquisas mostram que menos de 30% dos trabalhadores se sente motivado e engajado com relação a sua atividade profissional. Não é a toa que sintomas como stress, ansiedade, depressão e muitos outros estejam crescendo a cada ano.

Na Trimembração do Organismo Social, conceito desenvolvido por Rudolf Steiner no início do século XX, o equilíbrio social depende:

  • Da observação das necessidades da vida, todos precisamos de outros, não realizamos nada sozinhos e isso nos leva ao conceito da fraternidade. 
  • Da igualdade de direitos através da liberdade e autonomia nas relações sociais;
  • Das capacidades únicas e diferentes de cada ser humano, de nosso propósito.

Tomando como base esta perspectiva, o que cada um pode fazer dentro de seu espaço de autonomia para o desenvolvimento de um ambiente de trabalho saudável? 

Interesse: Compreender o alcance de sua tarefa, observar os efeitos, entender os motivos. Além do interesse por sua tarefa, busque exercitar empatia com seus colegas de trabalho. Por muito tempo convivi com pessoas em meu ambiente de trabalho sem saber muita coisa sobre elas. Desenvolver interesse, pode levar a motivação para o desenvolvimento pessoal. Se você atua como líder, dê condições para que sua equipe se desenvolva, conheça novas tarefas, se aprofunde no conhecimento de sua atividade. O movimento Management 3.0 propõe que o líder assuma o papel análogo ao jardineiro, dando condições para que as pessoas cresçam e se desenvolvam, deixando para trás a imagem da liderança que somente controla e monitora.

Reconhecimento: A organização vista como organismo vivo e não como uma máquina, reconhece que cada trabalhador é um indivíduo e que o resultado ou a produtividade depende da conexão entre as pessoas. Reconhecer esta dependência mútua, abre espaço para compreensão de que todos são importantes para a entrega do trabalho. Desenvolver um ambiente de trabalho em que as pessoas são incentivadas a colaborar entre si, em ambientes mais horizontais e mais participativos, nos convida a olhar para nossos colegas como individualidades e não como peças em uma engrenagem. Isto gera a possibilidade de todos atuarem em prol de um objetivo comum.

 

Responsabilidade: A partir do interesse e reconhecimento, pode surgir o sentimento de co-responsabilidade com relação ao todo, as consequências do trabalho executado. Quais impactos geram a sociedade, ao meio-ambiente? No movimento Capitalismo Consciente, os líderes são convidados a analisar o impacto de sua atuação em sua comunidade. Aqui o convite é superar o propósito da organização como sendo somente o de gerar lucro, mas buscar um propósito maior. Neste sentido, mesmo que o sentimento de impotência surja, despertar para esta responsabilidade, pode contribuir para um ambiente mais humano. 

“O importante não é a perfeição com a qual conseguimos realizar o que deve provir da vontade, e sim que o que tiver de surgir nesta vida, por mais imperfeito que venha a parecer, seja feito uma vez para que haja um começo!” – R. Steiner

Você reconhece suas capacidades únicas e seu propósito com relação ao trabalho? Talvez a resposta a esta pergunta não esteja pronta, mas não tenha receio de conviver com ela. Existe algo que só você pode realizar para atender as necessidades de outros.

Muitas vezes nos acomodamos esperando que algo mude lá fora. Independente de qual seja o papel que você executa hoje em sua organização, que pequena ação você pode realizar para desenvolver um ambiente de trabalho mais humano e mais feliz?

Fabiana Mello
Fabiana Mello
Coach com formação pela Escola de Coaches do Instituto EcoSocial. Facilitação de processos de desenvolvimento com formação pelo Programa Germinar. Membro da ICF – International Coaching Federation. Graduada em Processamento de Dados pela FATEC, MBA em eBusiness pela FGV e Ohio University, Pós-MBA em Empreendedorismo e Inovação com extensão em Stanford e mestre em Engenharia de Software pelo IPT – USP. Experiente na liderança de equipes multidisciplinares em empresas renomadas do mercado financeiro. Construiu sua carreira trabalhando em grandes projetos de Desenvolvimento de Sistemas, Gerenciamento de Projetos e Gestão de Mudança Organizacional. Cursando a formação em Aconselhamento Biográfico pela ELEB-SP.